Para entendermos como é possível simular um transistor a partir de um modelo hidráulico, será interessante partirmos do modelo eletrônico que tem a estrutura e o circuito básico de funcionamento mostrados na figura 1.

Conforme podemos ver, uma fonte de alimentação (B
1) é ligada entre o coletor e o emissor desse componente, tendo ainda uma carga que pode ser uma pequena lâmpada.
Uma bateria secundária é ligada entre o emissor e a base (B
2) de modo a poder forçar pela base do componente uma certa corrente.
O que a corrente de base faz é controlar a corrente principal de coletor do transistor. Assim, uma corrente muito pequena na base do transistor pode fazer com que uma corrente muito maior flua pelo coletor acendendo a lâmpada.
Essa diferença entre as correntes é que caracteriza a capacidade de amplificação do transistor: com correntes muito pequenas circulando pela base, podemos controlar uma corrente muito maior circulando entre o coletor e o emissor.
Para um modelo hidráulico, substituímos as baterias por bombas capazes de “empurrar” um líquido, a água por exemplo, através de canalizações. Temos então uma bomba potente (B
1) e uma bomba mais fraca (B
2) que justamente equivalem às baterias B
1 e B
2 do circuito eletrônico.
Os fios elétricos são substituídos por canalizações, sendo as mais grossas para conduzir o fluxo principal de líquido e as mais finas para conduzir o fluxo da bomba mais fraca. A carga será uma pequena turbina que girará quando água (ou outro líquido circular através dela).
O transistor propriamente dito, no seu modelo hidráulico, é formado por um conjunto de reservatórios que correspondem ao emissor, coletor e base e algumas válvulas que são acionadas por um sistema de polias, conforme ilustra a
figura 2.

Quando a bomba pequena (B
2) não está funcionando, não há líquido entrando no reservatório B (base) e, com isso, a válvula V
1 se mantém fechada e através da polia também mantém a válvula secundária (V
2) fechada. Dessa forma não pode circular nenhum líquido entre o reservatório C (coletor) e o reservatório (E). Em linguagem técnica dizemos que quando o transistor não está conduzindo, ele está no “corte”.
Quando um pequeno fluxo de líquido se estabelece no cano mais fino (base), ele aciona a válvula de passagem em B e ao mesmo tempo abre a válvula V
2, permitindo que um fluxo maior de líquido se estabeleça entre o coletor e o emissor (C e E).
Veja que a corrente nesse condutor principal é maior do que a pequena corrente que se estabelece na base, o que caracteriza a amplificação do dispositivo. Como a corrente pequena controla toda a corrente principal de líquido dizemos que o dispositivo está saturado.
Nesse modo de funcionamento, o transistor tanto na sua versão eletrônica quanto hidráulica funciona como uma chave, ligando e desligando uma grande corrente a partir de uma pequena corrente.
O transistor também pode funcionar como amplificador, o que é visto na
figura 3, para a versão eletrônica.

Nela, a variação de uma pequena corrente na base do transistor se traduz numa variação de muito maior amplitude na corrente que circula entre o coletor e o emissor. Em outras palavras, o sinal aplicado à base do transistor é amplificado.
Para a versão hidráulica, exibida na
figura 4, temos o mesmo: variações da corrente que flui pelo condutor de base se traduzem em variações proporcionais do líquido que flui pelo condutor de coletor. Isso significa que o transistor em sua versão hidráulica também pode ser usado como um dispositivo amplificador do fluxo de líquido que circula por sua base.

Conclusão
A idéia de um dispositivo amplificador baseado totalmente nas propriedades elétricas dos materiais semicondutores nos levou ao transistor, componente que é a base de praticamente tudo que existe em eletrônica.
No entanto, conforme vimos, não se trata de idéia exclusiva pois podemos ter o modelo hidráulico e, com ele, podemos elaborar “circuitos hidráulicos” importantes que podem ser empregados em automação e muitas outras aplicações.
Da mesma forma, podemos ter equivalentes do transistor utilizando recursos mecânicos, pneumáticos e até ópticos. Os leitores seriam capazes de imaginá-los?
* Matéria originalmente publicada na revista Mecatrônica Fácil; Ano: 6; N° 32; Jan / Fev - 2007